Poder

Eu poderia estar gemendo de prazer na cama de outros, ou outras, mas estou na minha pensando em você.  Sentindo o seu cheiro no lençol, rezando pra todos os santos que um dia um acreditei. Implorando a eles pra te trazer de volta pra cá. Pra minha cama, pro nosso ninho onde dividíamos suor e o tempo parava. Onde eu olhava para seus olhos negros e dizia que seria sua para toda vida. Jurava amor eterno, prometia nunca te abandonar. Agora a minha cama está fria, ge-la-da procurando o calor que há tempos não vem aquecê-la.  Você, meu tempo, minha cama, meu suor, meu calor. Você, meu menino.

Eu poderia estar me divertindo com minhas amigas ou com minha família, mas estou no meu quarto fumando um cigarro fedido e tomando um vinho safra ruim. Lendo suas cartas de merda e chorando. Gritando por seu nome. Você tem andado surdo, cego, mudo.  Eu rezo novamente e peço, suplico pra qualquer merda de santo pra trazer de volta minha diversão, minha fala, meus olhos, meus ouvidos. Você.  Pra trazer de volta você. Você, minha diversão, meu amigo, minha família, meu cigarro, meu vinho safra especial, meu olhos, meus ouvidos, minha fala. Você, só você.

Eu poderia estar com você, mas fui egoísta o tempo todo. Queria cuidar de uma vida que já era bem cuidada e esqueci da minha própria vida. Você negou o meu amor, negou meu beijos que poderiam ser intermináveis. Negação. Você, meu maior não.  E eu, sei perfeito sim a sua espera. Sou seu sim. Só sim.

Eu poderia tentar te esquecer, mas você me marcou tanto. Você que me tira a angústia de uma vida sofrida e cheia de conflitos. Como poder esquecer um ser que consegue fazer isso.  Meu melhor amigo, meu confidente mais precioso. Meu tesouro. Você

Choro, rezo, grito te buscando. Não devo mas vou fazer o que?

Minha vida, você ao meu lado no domingo chuvoso. Nas tardes quentes. Seu cheio no lençol, seu suor no meu corpo. Disso. Não sei se vou encontrar o mesmo suor, o mesmo lençol, o mesmo domingo chuvoso. Queria voltar no passado e parar o tempo. Meu tempo, meu tempo com você.

Te amo, sempre vou amar.

Você. Meu menino, meu suplício, meu tesouro.


Odelaxia

Sabe, quando comecei a ter algo com você, pensei que ia ser diferente. Sempre espero tirar leite de pedra e com você foi assim. Pensei que veríamos o luar mais vezes, que comeríamos carambola em baixo do pé mais vezes. Pensei que seus beijos seriam eternos, que nossos momentos sozinhos seriam pra sempre. Nada é eterno, mas você seria eterno. Em mim.

Estava hoje recordando daquela tarde de domingo, estávamos tomando um vinho deitamos sobre a relva verde e refrescante. Lembrei-me dos teus olhos, olhos de querer. Lembrei-me do seu sorriso, dentes alinhados e brancos. Lembrei-me do seu hálito, um hálito acre. Uma mistura de vinho, tabaco e menta.  Lembrei-me de quando sua barba roçava meu pescoço e eu ardia de prazer. Nessas minhas lembranças só apareciam você. Seus braços de acalanto, sua voz que não cansava de procurar meu ouvido. Uma pena que tudo tem um final. Seu adeus foi tão dolorido porque eu esperava tanto de você, e nada aconteceu. Nada mesmo. Sempre termino com um copo de pinga e um cigarro que eu observo ir se acabando na minha frente. Acho que sempre será assim.

Uma conversa, um beijo, um cheiro, uma cama, uma pinga, um cigarro, a solidão.

Minha vida, meu eu. Sem você, sem um alguém.

  Você hoje vive nas minhas memórias. Eu não procuro te tirar de lá. Nesses meus arquivos delirantes, te preservo da melhor forma. Eu estou conseguindo suportar sua ausência sufocante.

 Outros olhos eu ei de ver, outras barbas vão roçar meu pescoço e eu… vou me esquecer de ti. A bebida amarga já vai ter acabado. O hálito acre já vai ter ido. Sobrarão os cacos, os cacos do meu coração partido. Depois não venha me ligar, eu não preciso da sua voz.

Amor eu já não sinto, creio que nem existe mais. Onde está meu colo predileto? Meu ouvido anda só, minha vida uma miséria e o meu copo sempre cheio! Eu permaneço aqui. Nesse meu mundo de menina, sonhando com você. Eu quero um alguém. Não precisa ser você, precisa sem qualquer pessoa. Só quero ocupar meu tempo que já é curto e que precisa de mais uma ocupação pra ser completo. Preciso de alguém pra cuidar. De mim, talvez. De um alguém pra eu comprar geléia e torradas e levar na cama. Esse alguém você. Entende?

Sua barba no meu pescoço, seu cheiro na minha cama, seu cigarro se dissipando no ar. No ar que eu respiro. Meu cigarro, meu cheiro na sua memória. Por quê não?


Cachola

Eu tenho escrito tanta coisa louca, pois tenho andado meio louca. Descobri que assim posso tentar cicatrizar essas feridas de vida que a gente ganha só em viver. Essa coisa louca de gritar do nada e de chorar do nada. A loucura é algo muito belo a meu ver. Eu não gosto de gente normal, gente simples. Essa burguesada que finge ser feliz. Tenho sorte de ter minha monark tropical e poder andar por Bom Jesus e suas áreas verdes, pela beira-linha e sua feiúra de periferia e filosofar um pouco. Todo sofredor é um excelente filósofo de boteco. Eu não seria diferente. Ando nessa fase “meio intelectual meio de esquerda”. De intelectual eu não tenho nada, e como diria um amigo meu, eu acabei de ler o manifesto comunista e já quero fazer a revolução. Na verdade, revolução já quero fazer a anos e nem sei bem por onde começar. Quero primeiro retirar de mim esse inferno. Astral.

Já será “a revolução”, do the evolution , baby ! Está sendo melhor filosofar na minha magrela, ou melhor, sobre minha magrela do que no bar forever alone com um copo de cerveja barata. Também prefiro olhar o verde a apreciar o verde. Essas coisas de que andar de bicicleta melhora seu bem estar é super verdade. Qualquer exercício físico. A capoeira me frustrou. Queria lutar como os escravos na senzala. O batuque, os cantos de lamentação é tudo muito lindo e muito distante da minha realidade de sem jeito . Eu não tenho o molejo e aqui também ela é feita de forma tão tosca que nem me ensinaram direito. Eu parei um pouco de beber, de fumar e de tomar meus remédios de dia-dia por conta da minha bicicleta. Agradeço isso a ela e ao verde da minha odiada cidade. Eu não odeio aqui, mas já cansei da minha casa, do meu bairro, dos bares, do laguinho, de tudo. Eu quero me mudar daqui. Outra hora penso que não adianta mudar daqui por que na verdade o problema sou eu.

Sempre vou carregar tudo de ruim em mim, bem aqui na minha pele por onde for. Minha mãe diz que eu reclamo muito da minha vida confortável e que tem gente com problemas graves sem essas preocupações e incertezas que eu trago no peito. Acho que cada um sabe lidar com seus problemas e que se uma coisa é grave para mim as vezes para outras pessoas pode parecer pequena. Fico com raiva quando me falam isso. A minha verdadeira dor vem do além. Não sei bem o que é, mas ela me atenta todos os dias. Antes eu tinha medo do pecado, agora até de mim eu tenho medo. Eu decidi ficar sem ler por uns seis meses. Eu tava lendo filosofia muito pesada e acho que isso tem me prejudicado. Não pretendo extrapolar esse prazo, mas é necessário no momento. Vou só escrever. Escrevendo vou devagar costurando esses machucados que precisam de pontos e amenizando a dor. A dor de viver a vida sofrida. Essa minha vida que fica perfeita a cada pedalada que dou.


Feriado

A semana Santa já deixou de ser santa pra mim a muito tempo. E eu, na minha inocência, queria deixá-la menos santa com você ao meu lado. Olha, eu esperava que você me ligasse nesse último feriado. Você sempre fez isso. Mentira, eu sempre fiz isso. Não sempre, mas na maioria das vezes eu tomei a iniciativa. Dessa vez eu fiquei meio tímida e ao mesmo tempo tava tão preocupada com a minha faculdade, com uns artigos, com uns trabalhos e com a minha vontade de criar juízo que nem te liguei. Mas eu ia.

Mentira novamente. Estava esperando você chegar a Bom Jesus e me dar um toque, um me liga no celular. Essa é a verdadeira história. Você mora fora e só vem no feriado, sei que você ama aquela sua ex que já está casada, te aceito, sem problemas. Nós temos uns papos surreais e você me entende. Posso te abraçar e chorar no seu ombro que cheira a Kouros. Tinha idealizado um sábado e também um domingo lindo e gostoso ao seu lado. Sairia correndo do almoço de páscoa em família para comer chocolates ao seu lado. Poderia ter cozinhado aquela lasanha de berinjela que você adora. Ia abrir a garrafa de vinho que ganhei do meu admirador do Chile para tomar com você. A minha e a sua maior sorte é que sou o ser mais pessimista desse universo .Mas, que eu pensei que você ia me ligar eu pensei.
Se eu não te ligar você esquece ou então me liga uma hora antes do seu ônibus sair pra gente se falar tão rápido. Perdi seus lábios nos meus, sua mão acariciando meu cabelo e sua voz me chamando de linda. Eu queria ter isso, ter você cheirando meu suor e dizendo que meu cheiro é doce e ao mesmo tempo azedo. Ouvir você cantando Pearl Jam no meu ouvido e no fim de cada música um I Love you. Te sentir apertando os meus braços depois entrelaçá-los em minha cintura que insiste em engrossar. Que você gosta de ficar comigo e que conta os dias pro outro feriado. Ouvir mentiras que você diz e que eu acredito mesmo sabendo que não poderia acreditar. Conta os dias merda nenhuma, você esquece de me ligar e eu te ligo, depois ficamos conversando horas e mais horas pelo celular e MSN, coisa que poderíamos fazer pessoalmente.

Que irritante é isso, você também. Eu me incluo nessa irritação. Até porque eu que imagino e planejo as coisas. Depois você se veste de cordeiro e vem pedindo desculpas e me beijando e diz que me ama e que sempre me quer por perto. Eu retribuo os seus beijos, seus abraços, desculpo todas as desculpas esfarrapadas que você me pede. Engraçado que tudo isso se repete em todos os feriados e eu como boba prefiro acreditar que não vai mais se repetir. Lembro-me do feriado de Corpus Christi onde eu estava sentada no amarelinho da Cinelândia bebendo com um amigo e olhando de cinco em cinco minutos pro celular pra ver se você me ligava, se me mandaria uma mensagem. UMA MENSAGEM PORRA. Poderia até ser pelo facebook ou mesmo, sei lá, um sinal de fumaça. Esse mesmo amigo olhou para mim e disse que se você quisesse algo comigo com certeza me mandaria o caralho da mensagem que eu esperava. Eu queria você. Eu sou tão burra que estava no Rio de Janeiro, bebendo minha cachaça preferida, sem ter que me esconder prestes a ir pra Volta Redonda e mesmo assim estava pensando em você.

Se burrice matasse eu já estaria a sete palmos da terra. Esse nosso casinho de amor banhado a pinga e cigarro já faz mais de um ano. Você Sabe que eu adoro esse seu jeito descolado e seus dentes claros e certinhos. Sou apaixonada pelo seu olhar meio distorcido. Sua barba que roça no meu rosto e me machuca e me tira a razão e me deixa sem noção e que não me deixa escrever o sinal de pontuação correto nesse meu escrito e me faz repetir a mesma palavra várias vezes. Ah, você me tira o ar. Tive raiva quando te vi na rua, nem falar comigo você veio. Ia atravessar a rua e te abraçar, pular no seu colo e te beijar até o mundo acabar. Meu mundo já é acabado, o seu também é. Você poderia gostar de mim igual gosta dela. E fazer planos comigo igual fez com ela, morar junto comigo igual morou com ela. Sim, eu não sou ela mas posso ser melhor, ou pior, sei lá.

Eu adoro conversar com você, ando tão carente e perdida que queria muito ter você. Teve um dia que mesmo com toda a sua loucura e péssimo exemplo me aconselhou a continuar o meu curso e depois fazer Ciências Sociais. Me diz pra parar de beber e quando for beber pensar que você estará triste por isso. Mesmo eu sabendo que você fuma no mínimo três carteiras de cigarro por dia. Até você me diz isso… O que me deixa puta, PUTA(em caixa alta mesmo) é que a sua ex é uma mulher que te fez sofrer e que ri da sua cara, que desdenha da sua existência e mesmo assim ainda há uma foto da desgraçada na sua carteira. Coloca uma minha, pense em mim, liga pra mim. Eu cansei de ser a reserva. Não só sua, mas de tanta gente. Acho que vou te dar um gelo. Não um gelo pra você colocar no seu red label , mas um coração gelado.

Posso sofrer, mas não vou ficar idealizando sua voz no telefone dizendo que quer me ver, e me ter, e me fazer feliz. Vou tentar. Eu ei de conseguir!


Rua do Lavradio

O meu carnaval foi maravilhoso. Eu e o Rio de Janeiro, o Rio de Janeiro e eu. Junte a essa perfeita harmonia muito álcool. Pois bem, numa segunda feira de carnaval já era umas 2 da manhã quando avistei um homem. Eu estava no mesmo bar que ele. Esse  cara era o meu estilo preferido. Todo mundo que me conhece sabe que minha preferência é uma barriguinha saliente, barba grossa, pele clara e cabelos bem negros. Esse tal rapaz que deveria ter seus 28 anos e uns dois metros de altura era assim. Exatamente assim. Ele estava sozinho numa mesa atrás da minha. Tomava caipirinha e cerveja ao mesmo tempo.

Fiquei olhando,  mas não tive coragem de ir lá e falar que eu o adorei, que ele é meu estilo preferido, que ele é lindo. Depois que ele terminou a cerveja e a caipirinha tomou um táxi e se foi. Fiquei ali bebendo e pensando naquele cara. Ele me marcou porque eu jamais ficaria num bar sozinha em plena segunda de carnaval com a Lapa lotada. Não tenho coragem nem de ir ao centro cultural daqui de Bom Jesus sozinha. E ele ali, sozinho, sem se importar com nada nem ninguém. Se fosse eu estaria chorando e reclamando, diria que tenha amigos, que estou sozinha e todo mundo está acompanhado e blá, blá, blá. Ele é meu novo amor platônico. Numa foto que tirei com uma galera ele está atrás. Não dá para ver direito, mas era ele.

Meu amor, sem nome sem documento.  Ai, eu estou igual aquelas adolescentes de 13 anos que lê capricho, atrevida e essas coisas que não informam nada a ninguém. Digamos que de amor platônico eu estou lotada. Tenho dois na Turquia, um na Colômbia e outro no Chile. O do Chile foi o que mais me animou. Digamos que ele é lindo, lê poesias para mim, é amante de Neruda e escuta meus problemas. O Chile é aqui do lado e eu posso juntar uma graninha e dar uma desculpa de aprimoramento de Espanhol e ir visitá-lo. O Chile é lindo e o meu amor do skype é mais ainda. Barbudo, branquinho, cabelos negros e nos ombros.

Ai, eu quero ele, quero o cara do carnaval que vi na Lapa. Falando em Lapa, voltei lá umas 2 semanas atrás e tomei uma cerveja no bar onde eu o vi. Nada de encontrá-lo. Talvez não era aquele dia. Vai que ele não presta, se eu ficar só vendo aparência só vou-me foder. Antes eu gostava de negros, depois de gordos, agora de barbudos… Ai, o carnaval e eu, eu e a Lapa, o cara da mesa de trás e eu, eu e eu, eu e o meu outro eu. Tanto eu, pouco nós.


Papel picado

Depois de uns dias sem saber o que é banho resolvi deixar cair sobre o meu corpo cansado e fedido de cigarro uma água bem quente. Enquanto ela caía e ia limpando esse minha pele sofrida pra minha pouca idade, fiquei pensando em coisas loucas. As coisas loucas que não saem da minha cabeça. Minhas lamentações exacerbadas e sem nexo. Meus piores medos. Ah, o medo deixa essa minha vida cada vez mais parecida com o inferno. Ele me tira a pouca consciência que me resta. Faz-me ver coisas, casos, pessoas, fatos antigos que eu já esqueci. Tira-me o sono e quando eu o faço me faz tremer  toda. E me deixa dependente de mais uma coisa. Acho que eu não aguento mais uma dependência nessa vida fútil que eu não tenho coragem de tirar. Eu fico com minhas perguntas retóricas feitas pra qualquer pessoa nesse mundo.

Eu caço como um cachorro selvagem em qualquer esquina alguém que me diga: você vai viajar, você vai conhecer gente nova, você tem muito o que viver, sua avô não vai te assombrar. O pior de tudo é que eu sei disso,  mas, eu não consigo parar de pensar. Eu não consigo viver o hoje  pois tenho medo do futuro. Um futuro que depende do meu hoje. Eu não entendo esse meu viver vivendo, meu querer tendo, meu amar sendo amada. Eu não preciso de alguém para me amar. Eu preciso ter o tal do amor próprio que os sóbrios me dizem tanto. Amor próprio é coisa de burguês burro e gente bem amada. Os loucos não sabem o que é isso. Os loucos sabem o que é sofrimento, inconstância, devaneio. E eu só sei isso. Minto, sei tudo o que as pessoas me falam, entretanto não consigo admitir pra mim. Fico aqui com o meu vinho safra ruim escrevendo pra tentar tirar de mim toda essa amargura causada por anos e anos de dor. Permaneço inerte e procurando por psicólogos e profetas para afirmar para mim  coisas óbvias, coisas que até eu sei. Tomo remédio pra viver e ao mesmo tempo vivo tomando remédio.

Acendo um cigarro e tomo a sopa nojenta da minha dieta.  Eu não agüento mais tomar essa merda de sopa. Eu queria permanecer gorda. E eu escrevo pedidos de melhoras para mim e minha família e deposito aos pés da cruz. E eu choro olhando pra cruz. Eu choro porque antes era tudo mais simples quando eu acreditava em tudo. Eu corro pela igreja e pergunto para o meu Deus cadê a minha fé. Eu não tenho mais fé. Isso é agressivo pra mim. Eu que sempre tive fé. Fui uma criança de fé, mas não tenho mais. Acabou. Está tudo acabando. Eu estou acabada. Parece papel picado. Cada pedaço num canto. Eu fui rasgada e não encontro mais os meus pedaços. Sobrou de mim o pior. Ficou em mim o sombrio. E eu aqui, escrevendo pra ninguém ler. Vivendo só por viver. Chorando pois o que me resta é sofrer e sofrer e sofrer e sofrer.


You can dance, you can jive !

Fazia tempos que eu não saía. As pessoas me chamavam mas eu não queria. Preferia ficar em casa curtindo uma fossa ouvindo Chico Buarque e pensando em você. Fui convidada para ir num aniversário de uma colega da empresa. No início não aceitei o convite mas não recusei. Eu mal a conhecia e pensei que ela tinha me convidado por educação. Ela não demonstrava isso, todos os dias me perguntava se eu já tinha decidido qual roupa iria usar, se eu ia mesmo, essas coisas de gente interessada em sua companhia.  No sábado fui ao salão e passei o dia todo por lá. Também não fazia isso a muito tempo.

Decidi ir no aniversário. Me arrumei e cruzei os dedos para encontrar um novo amor por lá. Na verdade era isso que eu estava buscando. Um novo amor, um amor novo. Queria tirar você da minha cabeça, do meu coração. Cheguei atrasada e todos já estavam lá. Me cumprimentaram e ficaram felizes por eu estar ali. Eu era a depressiva da empresa e agora estava na festa, isso era algo incomum. Catharina chegou e me abraçou pegando seu presente. Me ofereceu um copo de caipirinha. Comecei a conversar com todo mundo e daí se foram dois, três, quatro copos de caipirinha, de cachaça pura e eu fui me anestesiando. Não me recordo de ver um olhar masculino para mim. Eu estava bêbada(como sempre) e isso me afastava desses olhares que eu sempre queria.

Dancei muito, bebi todas, cantei Dancing Queen bem alto, gritava  You can dance,You can jive. Fui uma das últimas a sair. Peguei um táxi e pedi para que ele me deixasse na praia. Tirei meus sapatos e corria na areia feito uma maluca. Rolava na areia, ria, gritava You can dance, you can jive e me pus a chorar. Eu estava tão bem mas essa merda de amor que eu ainda sinto por você veio a tona. Eu me abracei e chorava, parei de gritar you can dance e gritava o seu nome. Gritava, gritava, gritava. Fui andando para casa. O porteiro do meu prédio nem me reconheceu. Arranquei a minha roupa no corredor enquanto abria a porta e liguei para você. Você me disse que não conversava com bêbada frustrada, mal amada, mal comida. Dizia que o que me faltava era uma foda bem dada e que você não estava a fim disso. Abracei o vaso sanitário e vomitava, gritava seu nome, gritava o meu nome, chorava, vomitava, ligava para você, chorava, gritava you can dance…

Meus amigos me ligaram para saber como eu estava e eu disse que estava bem. Que eu estava saindo para visitar minha mãe. Menti, como sempre. Faço isso com tanta frequência que já soa como verdade. Eu estava bem. Bem mal. Estava sem você, estou na verdade. Adormeci na sala. Levantei, tomei um banho e um chimarrão. Rasquei suas fotos que outrora já havia rasgado mas colei. Soquei minha cabeça na parede enquanto  fumava meu cigarro. A fumaça ia fluindo e eu via o seu rosto nela. O cigarro acabou. Meu amor não. Você já se foi. Eu fiquei. Na merda. Abraçada a uma privada, suja, nojenta. Eu estou aqui, eu ficarei aqui. Não sei por quanto tempo, talvez até quando meu fígado aguentar. Me sinto covarde por não ter coragem o suficiente de me matar. Mas, eu ainda anseio por felicidade. Eu vejo a filha do seu Antônio da padaria com leucemia toda risonha, toda alegre e me sinto covarde por não aproveitar a vida. Ela com todos os problemas sorri, e eu que me livrei de um problema chora. Você é meu problema, eu não me livrei de você na verdade. Eu só me afastei de você. Fisicamente. Só fisicamente. Esse é o problema